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Sete anos bons, Etgar Keret | Resenha

Em Bebezão, segundo texto de Sete anos bons (Rocco), Etgar Keret reflete sobre os vários tipos de comportamento que seu filho recém-nascido Lev apresenta, na simplicidade que é ser um neném: o iluminado (falta de ego e apego material), o drogado (“só existem duas possibilidades: o peito ou o inferno”) e o psicopata (racismo, desigualdade – “ele não dá a mínima”). A análise do bebê é exagerada, claro, mas não deixa de dar uma dica do que vamos encontrar dali pra frente em relação ao autor: episódios cotidianos e experiências pessoais que mostram os vários lados que formam a sua personalidade, tratados de forma cômica e tendo como pano de fundo a vida moderna em Israel.

Dividido em sete partes, uma para cada ano, Sete anos bons conta com 36 crônicas engraçadas e inteligentes, com aquele tipo de humor afiado e ágil que dá inveja. Em entrevista ao jornal The Guardian, Keret, de 48 anos, disse que “os sete anos bons foram os anos em que eu pude ser tanto o filho do meu pai quanto o pai do meu filho” (ou seja, os anos entre o nascimento de Lev e a morte do pai do autor). Mas não só o Etgar pai e o Etgar filho podem ser encontrados no livro. São vários retratos – o escritor, o judeu não ortodoxo, o marido, e assim por diante. Cada temática ganha diferentes cores nos textos, que se complementam para mostrar a complexidade da vida. O judaísmo é uma das mais recorrentes, assim como sua nacionalidade israelense e o que ela representa em sua carreira internacional.

Também como parte de sua identidade, os resquícios do nazismo na forma de xenofobia e histórias de família mostram como a herança cultural de seu povo está presente na Tel Aviv contemporânea. O mesmo acontece em relação à guerra moderna, contra o Hezbollah, e que apresenta desafios à rotina da cidade. Em que medida é possível se acostumar com esse tipo de conflito? Em uma das melhores cenas do livro, em Pastrami, Etgar, a esposa e o filho se deitam no asfalto de um viaduto, ao lado do carro, para se protegerem do ataque aéreo que ocorre no momento que a família passava.

Aliás, o conflito marca não só o início do livro, já na primeira história, como também o início da vida de seu filho Lev. Quando sua esposa entra em trabalho de parto e é levada ao hospital, grande parte das enfermeiras está concentrada em atender feridos de um ataque terrorista, que é tratado com normalidade por todos.

Seis horas depois, um anão pendurado por um fio no umbigo salta da vagina de minha mulher e imediatamente começa a chorar. Tento acalmá-lo, convencê-lo de que não há com o que se preocupar. Que, quando ele crescer, tudo aqui, no Oriente Médio, estará resolvido: a paz virá, não haverá mais ataque terrorista e, mesmo que por um remoto acaso isso aconteça, sempre haverá alguém original, alguém com um pouco de visão para descrevê-lo com perfeição.

Mais próximos ao leitor ocidental, temas como o casamento, a chegada da meia idade, dilemas da criação do filho e a profissão de escritor também estão presentes. Eles, por sua vez, trazem novos ângulos sobre situações corriqueiras. Keret não tem medo de se autodepreciar, ou melhor, usar seus próprios defeitos ou dificuldades para fazer um texto bom e reforçar um ponto. No melhor exemplo do livro, em Impostor, ele conta como foi parar na aula de pilates após ser “reprovado” no nível mais básico do yoga, a aula para grávidasem estágio avançado de gestação. “Na verdade foi muito legal”, conta ele, “era a primeira vez em muito tempo que eu era o único com a menor barriga do ambiente”.

Com uma mão equilibrada, Keret utiliza frases irônicas ou simplesmente engraçadas pela honestidade exacerbada delas para fazer o humor. Em outros momentos, deixa fluir o cômico intrínseco à situação narrada, sem explicitar a graça com uma piada mais óbvia. Com poucas exceções, todos os ensaios têm um modo de humor ou o outro, e às vezes os dois, fazendo o leitor se divertir em muitos momentos. Publicado no Brasil pela Rocco, Sete anos bons é sincero, tão sincero que, algumas vezes, beira o grosseiro (de forma positiva, é importante ressaltar). Uma reunião de histórias brilhantemente construídas e que merece toda a atenção que puder ganhar dos leitores brasileiros.

Não quero me gabar, mas consegui angariar um status único e um tanto mítico entre os pais que levam os filhos ao parque Ezekiel, o lugar preferido de meu filho em Tel Aviv. Não posso atribuir essa realização especial a nenhum carisma avassalador que talvez eu tenha, mas a duas características comuns e medíocres: sou homem e quase nunca trabalho. E assim, no parque Ezekiel, fui apelidado de “ha-abba”, “o pai”, um apelido quase religioso e ligeiramente gentio entoado com grande respeito por todos os frequentadores. Parece que a maioria dos pais em meu bairro vai trabalhar toda manhã e, assim, a ociosidade inerente que me atormenta por tantos anos finalmente é interpretada como sensibilidade e afeto excepcionais de alguém que mostra uma compreensão verdadeira da alma jovem e terna das crianças.

Como “o pai”, posso ter um papel ativo nas conversas sobre uma ampla variedade de assuntos que até recentemente me era estranhos, além de ampliar meu conhecimento em temas como amamentação, bombas mamárias e os méritos relativos das fraldas de pano em oposição às descartáveis. Há algo quase perversamente tranquilizador em discutir essas coisas. Como um judeu estressado que considera sua sobrevivência momentânea excepcional e nem um pouco banal e cujos alertas do Google diários limitam-se ao estreito território entre “desenvolvimento nuclear iraniano” e “judeus + genocídio”, não já nada mais agradável do que algumas horas tranquilas discutindo esterilização de mamadeiras com sabonete orgânico e assaduras avermelhadas no bumbum de um bebê. Mas esta semana a magia terminou e a realidade política se esgueirou sorrateiramente para meu paraíso particular:

– Diga-me uma coisa – perguntou com inocência Orit, mãe de Ron, um menino de 3 anos. – Lev irá para o exército quando crescer?

A pergunta me pegou inteiramente de guarda baixa. Nos últimos três anos, tive de lidar com algumas perguntas especulativas sobre o futuro de meu filho, a maior parte delas irritantes, porém inofensivas, do tipo “você o aconselharia a ser artista, embora pelas suas roupas não deva haver muito dinheiro nisso?”. Mas essa pergunta sobre o Exército lançou-me em um mundo surreal e diferente, em que vi dezenas de bebês robustos embrulhados em fraldas de pano ecologicamente corretas descendo das montanhas em pequenos cavalos, brandindo armas em suas mãos rosadas, soltando gritos de batalha homicidas. E diante deles, sozinho, está o pequeno e rechonchudo Lev, de farda e colete do Exército.

❢ A ilustração acima é parte da arte do livro, um autoretrato de Keret.

❢ A Folha de S.Paulo publicou uma entrevista com o autor em 2014, quando ele veio para a Festa Literária Internacional de Paraty.

❢ A mesa da qual Keret participou na FLIP pode ser ouvida aqui.

❢ 10 dicas para escritores, segundo Etgar Keret, no Open Culture.

❢ Entrevista com o escritor na revista norte-americana Newsweek, aqui.


Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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