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Altos voos e quedas livres, Julian Barnes | Resenha

Então, como você sente? Como se tivesse despencado de uma altura de centenas de metros, consciente o tempo todo, caído em pé sobre um canteiro de rosas com um impacto que o fez ficar enterrado até os joelhos, e cujo choque fez com que seus órgãos internos se rompessem e explodissem para fora do corpo. É isso que você sente, e por que deveria ser diferente? Não causa espanto que algumas pessoas queiram conversa sobre um assunto menos perigoso. E talvez elas não estejam evitando a morte ou evitando falar dela: elas estão evitando você.

Há várias formas de lidar com a morte. Raiva, depressão, negação. O luto tem uma maneira única e inegável de pegar cada um de nós, cedo ou tarde. Em Altos voos e quedas livres (Rocco), o aclamado escritor inglês Julian Barnes conta sua experiência pessoal com a perda de alguém que ama.

Apenas 37 dias após a descoberta de um tumor no cérebro, a agente literária Pat Kavanagh, com quem Barnes era casado há 30 anos, perdeu a vida. A dificuldade de aceitar o ocorrido, o estranhamento das relações sociais a partir daquele momento e a saudade são descritas na parte final do livro (que é dividido em três), A perda de profundidade. Essa última, a saudade, aliada à dor óbvia da perda, é tão latente que Barnes se recusa a cometer suicídio – apesar de esse ser um pensamento corrente -, pois enquanto estivesse vivo, a memória de Pat também estaria.

Nadar,_Félix_-_Self-portraitAntes de chegar ao luto, entretanto, Barnes dedica a primeira parte do livro, O pecado da altura, a um ensaio sobre o balonismo.  “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, diz ele logo na primeira página. Desde o início, o leitor tem em mente duas premissas: de que duas coisas serão unidas de forma inédita e que tudo o que levanta voo deve cair em algum momento. Três figuras proeminentes do balonismo do século XIX são apresentadas: o coronel Fred Burnaby, a atriz Sarah Bernhardt e o fotógrafo Félix Tournachon (ou, Félix Nadar).

Nadar é quem estabelece os parelelos sutis entre a prática do balonismo e os relacionamentos, ao unir duas coisas, a fotografia e balonismo, criando a fotografia aérea. Com isso, ele juntou a beleza do retrato e o sonho das alturas. “Nós vivemos na superfície, no nível horizontal, e no entanto – e por isso – nós sonhamos. Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas, quando voamos, podemos cair. Existem poucos pousos suaves.”

Na segunda parte, No nível do chão, Barnes ficcionaliza um romance entre Bernhardt e Brunaby, relacionamento que permanece em estado de desilusão para ele. Ao mostrar uma forma de amor não realizado, ou seja, uma forma de queda (o primeiro declínio das nuvens em direção ao chão), ele prepara o leitor para o verdadeiro tombo que vem a seguir, o relato de sua experiência pessoal.

Você junta duas pessoas que nunca foram juntadas antes. Às vezes é como aquela primeira tentativa de atar um balão de hidrogênio a um balão de fogo: você prefere cair e pegar fogo ou pegar fogo e cair? Mas às vezes funciona, e algo novo é criado, e o mundo se transforma. Então, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, por um motivo ou outro, uma delas é levada embora. E o que é levado embora é maior do que a soma do que havia. Isto pode não ser matematicamente possível; mas é emocionalmente possível.

Ao contrário do que se possa pensar, Barnes não apresenta grandes reflexões sobre a morte e a vida, ou mesmo sobre o processo de falência gradual que intercala os dois estágios entre estar vivo e não estar mais. O que ele faz é, sim, contar como foi tentar aguentar dia após dia se acostumando com a ausência de alguém que sempre esteve ali, tentando costurar um pouco dos retalhos soltos que sua vida se tornou após a perda de uma metade, um par. A experiência pessoal não tem a pretensão de se tornar coletiva, apesar de poder despertar a identificação, e é comovente na medida em que expõe o amor em cada palavra que dirige a Pat.

Julian Barnes escreveu 12 romances, além de contos e ensaios, e é ganhador do Man Booker Prize por O sentido de um fim, publicado no Brasil pela Rocco. Altos voos e quedas livres, publicado em 2013, é curto (pouco mais de cem páginas), com vários blocos breves de texto se sucedendo, e é extremamente sincero. Também é doloroso, mas sem autopiedade. Em uma analogia explícita entre amor e voo, morte e queda, ele encontrou um modo de cicatrização, entre os muitos modos falhos que descreve no livro. Afinal, como se recuperar de uma queda desse tipo, tão repentina?

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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