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No mar, Toine Heijmans | Resenha

Sempre que começo a ficar austero; sempre que é um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que dou comigo a parar involuntariamente diante de empresas funerárias e a cerrar a fila em cada enterro que encontro; e especialmente, sempre que minha hipocondria adquire tal domínio sobre mim que é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surra as pessoas – então acho que está na hora de ir para o mar o mais depressa possível.

No famoso trecho de Moby Dick, clássico de Herman Melville, Ishmael conta que vai para o mar quando sente um impulso quase físico de fugir da terra firme e das pessoas. Essa necessidade é evocada, indiretamente, pelo protagonista de No mar (Cosac Naify), de Toine Heijmans. O livro é narrado por Donald, um pai que vive uma aventura com a filha, velejando no Mar do Norte a bordo do pequeno barco a vela Ishmael – referência óbvia ao personagem de Melville.

Após anos de trabalho enfadonho em um escritório, o personagem principal ganha três meses de férias remuneradas e decide que é hora de tirar um período sabático com o qual tanto sonhava, para velejar sozinho. Ao final dos 90 dias de navegação, ele faz uma parada em Thyboron, na costa da Dinamarca, para que sua filha Maria, de apenas sete anos, embarque. A ideia, surpreendentemente apoiada pela esposa dele, Hagar, é que a filha o acompanhe nos últimos dias de trajeto até a chegada ao lar da família, em Harlingen, na Holanda. 

Antes mesmo de começar o relato, recebemos indicações de que essa história não terminará bem. As epígrafes escolhidas por Heijmans estabelecem o tom com que o leitor deve encarar a história: “Ele foi o arquiteto de sua própria ruína. Tentou fazer algo que saiu desastrosamente errado”. A citação de Simon Crowhurst, por exemplo, evoca a viagem de barco que terminou com a morte do pai, Donald Crowhurst. É criado, assim, um paralelo que ficará mais claro conforme a leitura avança e conforme as palavras do narrador começam a ser colocadas em xeque.

A partir de certo momento da narrativa, vemos a linda aventura de aproximação paternal começar a ir por água abaixo. Em diversos momentos o narrador parece confuso e um tanto compulsivo. Sua obstinação por fazer com que tudo saia perfeito – em parte para provar algo à esposa – é tão grande que chega à obsessão. Ele fica sem dormir durante todo o tempo acompanhado da filha, para o caso de Maria acordar à noite ou de uma tempestade pegá-los desprevenidos. Além disso, passa o tempo fantasiado sobre a triunfal chegada ao porto, com bandeirinhas penduradas por todo o barco e com a filha conduzindo a embarcação nos metros finais, em uma demonstração fofa de diversão em família.

Justamente o comportamento do pai à bordo demonstra que algo estava errado em sua rotina na cidade, de trabalho e família. Assim como no Ishmael de Melville, percebemos em Donald um traço de impaciência – de estar “no limite”, de quase sair e “metodicamente surrar as pessoas”. Quando sai para velejar, entretanto, um dos maiores desafios desse tipo de viagem é a solidão. Tal aspecto é abordada no livro de diversas formas, por meio dos acontecimentos durante a viagem com a filha e, também, dos episódios lembrados pelo pai. O isolamento dos dois é quase total, com exceção de esporádicos contatos com o centro de controle marinho e eventuais mensagens de texto trocadas com a esposa. Os três meses de navegação sozinho (pois, mesmo quando parava em cidades costeiras para abastecer, evitava o contato com outras pessoas) mostram-se determinantes para o estado em que ele que se encontra nas horas finais da viagem.

A narração é séria, com algo de inquietante. O pai tem um quê de autopiedade, que aflora em algumas frases mas logo desaparece. O cansaço dele é gritante e dá uma sensação contínua de que tudo irá desmoronar a qualquer momento – de novo, o limite. O ótimo No mar, publicado em 2001, venceu o prêmio francês Médicis Étranger e tem versão brasileira pela extinta Cosac Naify.

 

Eu mesmo deveria me enfiar no forno. Assim eu desapareceria de tudo à minha volta.Mas isso é impossível. Não estou sozinho no barco. Minha filha está comigo, dormindo. Tenho que fazer com que continue dormindo até a tempestade passar. Até chegarmos. Então a terei levado com segurança pelo mar, da Dinamarca para casa. Então tudo terá saído como eu tanto queria. Coloco o celular no forno. Não sei se será útil, mas, de qualquer forma, me ajuda a raciocinar. Enquanto ainda consigo pensar em colocar o telefone no forno, tenho tudo sob controle.

A bordo é preciso ser metódico e organizado, isso dá tranquilidade. As amarras à esquerda no paiol de âncora. Café às oito horas. Botas no camarote de proa. Anotar regularmente a posição no diário de bordo. Ouvir a previsão do tempo pelo rádio VHF. Arriar a bandeira depois do pôr do sol. Sob ameaça de tempestade, colocar o celular no forno.

Sobrevive-se graças à rotina. Quando algo não vai bem, é melhor saber exatamente onde cada coisa está. Sem rotina, os pensamentos tropeçam uns nos outros. Pensa-se em tudo ao mesmo tempo. Nas nuvens, no forno, no café, nas botas, na bandeira. No diário de bordo e nas amarras. Na filha que dorme no camarote de proa.

Quando você não consegue mais raciocinar com clareza, o mar te arrasta com ele.

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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