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Umbigo sem Fundo, Dash Shaw | Resenha

Após quarenta anos de casamento, Maggie e David Looney decidem se separar. Para dar a notícia aos filhos, eles reúnem toda a família em sua reclusa casa, à beira da praia. Porém, os três filhos do casal, Claire, Dennis e Peter recebem a novidade cada um a sua maneira. Na graphic novel Umbigo sem fundo (Quadrinhos na Cia), lançada em 2008, o norte-americano Dash Shaw retrata de forma brilhante uma família comum, com suas várias facetas e esquisitices.

Dennis, o filho mais velho, é o que fica mais chocado com a notícia. Resolve questionar os pais o tempo todo para tentar encontrar uma razão lógica para uma decisão emocional. E o decreto dos dois idosos não poderia ser mais claro: eles apenas não se amam mais. Apegado a uma concepção tradicional e patriarcal de família, Dennis é tão empenhado em mostrar aos pais que estão sendo precipitados que não percebe os problemas no próprio casamento com a esposa Aki, não enxergando a infelicidade da esposa.

Claire, a filha do meio, é mãe solteira de Jill, uma adolescente de 15 anos. Tendo passado ela mesma por uma separação, Claire mostra uma visão mais cética do casamento e da vida, não demonstrando espanto com a decisão de David e Maggie. Ela se refugia em seu papel de mãe, escondendo uma melancolia depressiva, e não tem amigos ou vida social.

20160419_082704Por fim, Peter, o filho mais novo, é o outsider da família – e o que menos se abala com o divórcio. Seu próprio pai admite que não o conhece direito e que poderia amar mais seu caçula, se fossem mais próximos. Nas cenas familiares, Peter nunca tem um papel definido, sempre ficando à deriva dos outros membros. A escolha de Shaw de desenhar Peter como um humano com rosto de sapo é uma ótima forma de mostrar sua péssima autoimagem e como ele imagina que o mundo o vê. Um loser no seu modo mais característico, Peter é o filho que não cresceu e não “tomou jeito” na vida: não tem um trabalho fixo (é um cineasta frustrado), está sempre com uma aparência péssima e tem uma inaptidão constrangedora para se relacionar com mulheres.

O roteiro de Umbigo sem Fundo é ótimo, com uma sensibilidade sutil sobre as relações humanas. Por todas as quatro partes do livro, dois elementos aparecem para fazer paralelos com as ações e sentimentos de cada Looney: areia e água, em diversas formas físicas e metafóricas. As texturas, bem exploradas, são desenhadas com pontos e traços mais simples, mantendo a estética geral clean.

Um dos aspectos positivos da obra é a diagramação, pensada de forma a deixar poucos frames isolados em algumas páginas, em momentos estratégicos, aumentando a sensação de solidão ou delicadeza de certas cenas. Com algumas cartas escritas em código, trocadas entre o casal no início do relacionamento, o leitor também pode brincar de descobrir as palavras escondidas nos enigmas – uma descontração bem-vinda que se encaixa muito bem na obra.

Dividida em quatro partes, a graphic novel é um bom exemplo de harmonização perfeita entre a história, sua narração e sua representação. Dash tem um jeito cinematográfico de progressão das cenas, com a exploração de closes, legendas e a representação de vários ângulos de uma mesma ação – a maioria das vezes banal, como lavar a louça ou correr na praia.

Isolados em seus mundos particulares (em que “cada membro é uma entidade flutuante e separada dos outros membros”, como define Shaw), os integrantes da família vivem experiências próprias ao longo dos dias que ficam na casa dos pais: Aki leva Claire a uma noite de libertação, enquanto deixa Dennis em sua obsessão por explicar a separação dos pais e Jill ajuda Peter a conhecer uma garota local, mas se depara com seus próprios problemas de relacionamento com outras pessoas.

Enquanto isso, David e Maggie, os pivôs do reencontro familiar, vivem sozinhos embora juntos. É clara uma interdependência entre eles, devido aos longos anos de convivência. David é frágil, lento e extremamente quieto, e Maggie é a mãezona que tenta unir a família, resgatar lembranças boas e se aproximar mais de cada um dos filhos. O que não deixa de transparecer é uma forma estranha e deslocada de afeto, da maneira sincera como o melhor tipo de amor deve ser.

❢ Na Vulture, há um trecho do original em inglês

 

❢ No UOL, você pode ver algumas cenas da versão em português

 

❢ Site do autor: http://dashshaw.tumblr.com/

 

❢ Vídeo Dash Shaw doesn’t want to go to parties, no site da New Yorker

 

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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