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Voltar para casa, Toni Morrison | Resenha

Lotus, Geórgia, é o pior lugar do mundo, pior que qualquer campo de batalha. Pelo menos no campo tem um objetivo, emoção, ousadia e alguma chance de vencer ao lado de muitas chances de perder. A morte é certa, mas a vida é tão certa quanto. O problema é que não dá pra saber disso antes.
Em Lotus, você sabia antes, já que não tinha futuro, só longos momentos de matar o tempo. Não tinha outro objetivo além de respirar, nada pra conquistar e, a não ser pela morte tranquila de alguém, nada pra sobreviver ou por que valesse a pena sobreviver.

Como o título sugere, Voltar para casa (Companhia das Letras), da escritora norte-americana Toni Morrison, é uma história de retorno ao lar: não só ao lugar físico mas ao conforto e à familiaridade que ele representa. O livro narra a trajetória de Frank, um veterano negro da Guerra da Coreia, a caminho de sua cidade natal, Lotus. Paralelamente, também acompanha as mulheres de sua vida: a irmã Ycidra, a namorada Lily e, em menor escala, a avó Lenore. Todas elas negras, nos Estados Unidos segregacionista dos anos 1930.

Para Frank chegar ileso a Lotus, impulsionado por uma carta com um pedido de socorro da irmã, ele precisa se manter fora da vista da polícia, que pode pará-lo a qualquer momento por qualquer motivo. Ele depende não só de circunstâncias favoráveis mas também da ajuda financeira de outras pessoas. Entretanto, o maior desafio está dentro dele mesmo: as sequelas psicológicas deixadas pelo seu serviço militar. Em um instante, pode ficar violento ou ter alucinações. Inclusive, sua jornada começa fugindo de um hospício, mas o motivo para a internação ou como chegou ali não são completamente revelados ao leitor.

Assim como em outros livros de Morrison, o brilho fica a cargo das mulheres. Seguindo uma linha cronológica diferente, atrasada em relação ao relato de Frank para explicar o porquê do pedido de socorro, sabemos que Ycidra (a “Ci”) vai para a Atlanta tentar arrumar um emprego e melhorar de vida. De garçonete, passa a trabalhar como assistente de um médico que defende o conceito de superioridade racial branca.

Ycidra é marcada pela insegurança. Sua avó, Lenore, considerava um mau presságio a neta ter nascido na estrada (sua mãe, Ida, estava indo morar na casa dos pais) e, por isso, maltratava e rejeitava a menina. Lenore representa o apego material na família, uma mulher seca, prática e cruel. Ycidra, a “filha da sarjeta”, tinha como seu único porto-seguro o irmão Frank. Apesar de terem fugido da cidade natal, da família disfuncional e da falta de perspectivas, os dois personagens principais, Frank e Ci, acabam sendo puxados de volta ao lar, que vão aprender a reconstruir e amar.

O processo de autoconhecimento e as dificuldades de vida dos negros são tratados de forma sensível por Toni Morrison. Em um dos trechos mais emotivos, Ethel, vizinha de Ycidra, aconselha: “Entende o que eu digo? Olhe para você. Você é livre. Nada nem ninguém é obrigado a te salvar, só você mesma. Plante sua própria terra. Você é moça e mulher, e as duas coisas têm sérias limitações, mas você é uma pessoa também. Não deixe a Lenore ou um namoradinho qualquer e com toda certeza nenhum médico do mal resolver quem você é. Isso é escravidão. Em algum lugar aí dentro de você está essa pessoa livre de que eu estou falando. Encontre ela e deixe ela fazer algum bem neste mundo.”

Racismo e questões de identidade, temas recorrentes na obra de Morrison, são ainda mais aparentes na trajetória de Lily, namorada de Frank. Apesar de esforçada e talentosa, mesmo depois que sua fama como boa costureira começa a crescer, ela não pode comprar a casa que deseja por ser de venda proibida para negros, em um bairro exclusivamente branco; e o sonho de ser modista tem muito mais obstáculos do que precisaria. Ela, porém, é determinada. Assim como outras mulheres que aparecem no livro em segundo plano, Ci e Lily são corajosas, mesmo que demorem para perceber isso. A união feminina, a frieza com que tratam alguns problemas e a solidariedade sem sentimentalismo marca a relação delas entre si, principalmente na parte final do livro, em que a perspectiva de Frank perde fôlego para dar espaço à resolução da situação de Ci.

A narração é, na maior parte do livro, em terceira pessoa, mas alguns capítulos em primeira pessoa também são apresentados como um ponto de equilíbrio mais subjetivo. Aos poucos, eles revelam segredos e memórias de infância – que, juntos ao contexto maior, trazem clareza sobre alguns aspectos da história. Também são mais penetrantes, à medida que são mais íntimos e dão uma visão privilegiada sobre esses personagens. 

Voltar para casa é um livro simples, mas que alcançou um lugar mais profundo dentro de mim. Para quem já gosta de outros livros de Morrison, ele próprio representa um lugar familiar, com seus temas recorrentes e a prosa envolvente e limpa da escritora. Toni Morrison iniciou sua carreira em 1970 com Olho mais azul e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1993. Voltar para casa foi lançado em 2012 e chega no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de José Rubens Siqueira.

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Parada à janela, enrolada na toalha áspera, Ci sentiu o coração se partindo. Se Frank estivesse ali, ele iria mais uma vez tocar sua cabeça com quatro dedos ou acariciar sua nuca com o polegar. Não chore, diziam os dedos; os vergões vão desaparecer. Não chore; mamãe está cansada; não quis dizer aquilo. Não chore, não chore, menina; estou aqui. Mas ele não estava ali nem em lugar nenhum por perto. Na fotografia que havia mandado para casa, um guerreiro sorridente fardado segurando um rifle, ele parecia fazer parte de alguma outra coisa, alguma coisa além e diferente da Geórgia. Meses depois de ter sido dispensando, mandou um cartão-postal de dois centavos para contar onde estava morando. Ci respondeu:

“Oi irmão como vai você eu estou boa. Acabei de arrumar para mim um emprego ok num restaurante mas estou procurando outro melhor. Escreva quando puder Sinceramente Sua irmã.”

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? Leia aqui a resenha de A mercy, da Toni Morrison

? Leia aqui a resenha de Olho mais azul, da Toni Morrison

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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