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Daytripper, Fábio Moon e Gabriel Bá | Resenha

Vou começar com uma história pessoal. Pode ser um clichê, mas aprendi a dar mais valor às experiências e às pessoas de quem gosto depois de ter real consciência da morte. É claro que é de conhecimento universal que todos vamos morrer um dia; mas, só depois de entender que nunca se sabe quando isso vai de fato acontecer, é que compreendi o quão próxima ela pode estar.

Eu estava em Nice, na França, durante o atentado do Dia da Queda da Bastilha, em julho deste ano. Presenciei a pior cena imaginável, fugi, cai, me machuquei, tive medo, fugi de novo e consegui abrigo. Percebi, aos 24 anos de idade, que não sou tão eterna quanto eu incoscientemente pensava, e isso me ensinou a viver melhor.

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“A maior das experiências é existir”, diz Craig Thompson no prefácio da graphic novel Daytripper (Vertigo). A obra dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá conta, por meio das várias mortes de Brás de Oliveira Domingos, sua história de vida. Brás1 é um jornalista responsável pelos obituários de um jornal de São Paulo que está tão acostumado à mortalidade que acaba esquecendo da parte mais importante, a vida. Aspirante a romancista, ele está sempre esperando algo excitante acontecer e está sempre preocupado com o próximo passo, sem se concentrar no atual.

Seja em uma viagem para Salvador com o melhor amigo Jorge, um final de semana na chácara dos avós quando era criança ou uma simples ida à padaria – a lição que Brás precisa aprender é a de que o importante é o agora, pois todo dia pode ser o último. E apesar dessa ser uma verdade cruel, é também libertadora.

Profissionalmente, Brás vive às sombras do pai, um escritor consagrado e de quem sempre tentou ganhar aprovação e atenção. A figura paterna tem muita importância no enredo, mas são vários os tipos de amores presentes na HQ, tratados com um equilíbrio entre sensibilidade e crueza: romântico, paterno, materno e entre amigos. Os personagens vão dos parentes de Brás às duas mulheres que amou, seu amigo Jorge e o companheiro canino, Dante.

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A construção da narrativa não tem uma cronologia linear (originalmente, foi publicada como uma série), e cada capítulo foca em uma idade específica de Brás, indo e voltando no tempo. Em cada um, um episódio diferente se desenrola até terminar com a sua morte, montando, assim, um retrato da vida inteira de Brás.

Visualmente, Daytripper é incrível. Os dois pontos fortes são as cores que se misturam como uma aquarela, com muitos tons de laranja, roxo e azul, e a simplicidade no desenho de expressões faciais, que conseguem mostrar a intensidade do que o personagem está sentindo em poucos traços. Os consagrados quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá são paulistas e começaram a carreira em 1993. Em 2011, Daytripper foi aclamado como uma das melhores graphic novels do ano e ganhou os prêmios Eisner Award, Harvey Award e Eagle Award. A HQ mais recente deles, Dois irmãos, uma adaptação da obra homônima de Milton Hatoum, também ganhou o prêmio Esiner, considerado o mais importante para histórias em quadrinhos.

Daytripper mostra que a vida é feita de muitas reviravoltas inesperadas, e o que faz dela boa (ou ruim) são as experiências cotidianas e as pessoas que nos acompanham nessa jornada. São esses fatores que nos moldam e nos fazem quem somos. Cheguei perto dessa compreensão de sopetão, em uma situação extrema – enquanto Brás entenderá isso durante os muitos episódios retratados na HQ. Mas, cada um de nós tem um jeito de aprender o que significa viver, e também um jeito diferente de encarar o fato de que, apesar do fim poder chegar a qualquer momento, todo dia pode ser um novo começo. E o que fazemos a partir disso é o que conta.

1- Impossível não lembrar de Brás Cubas, famoso defunto-personagem de Machado de Assis, que resolve contar, depois da morte, sua história de vida.

❢ Clique aqui para ler a resenha de Dois Irmãos.

❢ No blog de Fábio Moon e Gabriel Bá, 10paezinhos, você pode conhecer um pouco mais sobre o trabalho deles.

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Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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