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Um outro amor, Karl Ove Knausgard | Resenha

Em 2009, o norueguês Karl Ove Knausgard inaugurou a série autobiográfica de seis volumes Minha Luta. O primeiro livro, A morte do pai, se concentra na adolescência e no relacionamento do autor com seu pai, quando tem que providenciar seu funeral após uma morte em completa decadência. No segundo volume, Um outro amor, o escritor retoma seu estilo seco e honesto para tratar do dia a dia do casamento e da criação dos filhos.

Knausgard organiza sua narrativa a partir do presente, em que é casado com Linda, sua segunda esposa. Por isso, ele faz flashbacks para contar sobre o início do relacionamento, tomando como ponto de partida a separação da primeira esposa, Tonje, e sua subsequente mudança para a Suécia. Chegando em Estocolmo, ele retoma o contato com Linda, que havia conhecido em um programa para escritores. É começo do que resultaria no casamento e no trio de filhos deles: Heidi, Vanja e John.

A narrativa foca em tarefas banais e desafios da rotina cansativa da família, no processo de construção da vida doméstica deles. Como já acontecia no primeiro livro, algumas cenas simples são narradas por várias e várias de páginas, e repletas de reflexões sobre pequenos detalhes – sem, no entanto, que fique uma leitura “arrastada”.

Desde a abertura do livro, o escritor mostra a dificuldade de ser feliz diariamente, de ser um casal normal com filhos para criar. Ele deixa muito claro que ama a família, mas é sincero quanto aos desafios do dia a dia, com os caprichos das crianças, o estresse natural de um relacionamento amoroso, e os problemas cotidianos. Karl Ove inicia Um outro amor, por exemplo, com a cena do casal em um parque de diversões de beira de estrada, fazendo malabarismos para agradar as três crianças enquanto tentam ir embora, num clima de briga e quase sem se falar.

O relacionamento deles é um tanto conturbado, entre outras razões, pela necessidade de Knausgard de ficar sozinho para escrever – atividade que ele tenta conciliar com cuidar dos filhos e da casa, enquanto Linda se dedica a terminar seu curso de roteiro. Além disso, ela tem problemas com a depressão e tem episódios de ataques maníaco-depressivos, o que faz com que o escritor tenha “dois conjuntos de sentimentos” em relação a ela:

“Um me dizia, você tem que ir embora, ela exige demais de você, assim você vai perder toda a liberdade, dedicar todo o seu tempo a ela, e o que vai acontecer com tudo o que você considera importante, com a sua autoestima e a sua escrita? O outro dizia, você a ama, ela dá a você coisas que ninguém mais poderia dar, e ela sabe quem você é. Sabe exatamente quem você é. Esses dois conjuntos estavam igualmente corretos, mas eram incomensuráveis, um excluía o outro e vice-versa.”

O que parece é que Karl Ove enfrenta uma dualidade interior, uma escolha diária entre ser um homem maduro que assume as responsabilidades familiares e se faz presente, e a vontade de se isolar, dedicando-se a consumir e produzir cultura. Referências a outros escritores, pintores e filmes, inclusive, estão presentes em todo o livro, sendo que algumas páginas são inteiramente dedicadas a divagações sobre elas.

Knausgard tem um humor sarcástico, que muitas vezes chega a ser autodepreciativo. Em uma das melhores cenas que ilustram essa característica, o escritor vai a uma aula de yoga para bebês com seu filho recém-nascido, John. Ele já chega ao compromisso contrariado pela simples ideia da atividade, sugerida por Linda, o que piora quando percebe que a professora é bonita. O resultado é uma hora inteira de constrangimento, pensando em como a instrutora de yoga está vendo ele fazer papel de bobo sentado com o bebê entre as mãos e seguindo as instruções da aula, único homem em meio aos outros bebês e suas mães – experiência que é otimamente descrita, cheia de ironia.

“Um terceiro, o menino mais velho da creche, logo encontrou um dos meus pontos fracos ao tirar o molho de chaves do meu bolso quando estávamos sentados à mesa para comer. O simples fato de que não impedi, mesmo que eu tenha ficado muito irritado, fez com que farejasse a minha fraqueza. (…) Então ele balançando as chaves debaixo do meu nariz. As outras crianças olharam para nós, e três adultos da equipe também. Cometi o erro de tentar pegar as chaves com um movimento brusco. Ele conseguiu afastá-las e deu uma gargalhada cheia de desprezo. Ha ha, você não consegue pegar!, disse. Mais uma vez tentei fingir que nada tinha acontecido. Ele começou a bater com as chaves na mesa. Não faça isso, eu disse. Ele simplesmente deu um sorriso atrevido e continuou. Uma pessoa da equipe pediu que parasse. Então ele parou. Mas continuou a balançar as caves na mão. Você nunca mais vai pegar essas chaves, disse. Nesse instante Vanja interferiu.
Dê as chaves para o meu pai! – gritou.
Que tipo de situação era aquela?
Fingi que nada tinha acontecido, me inclinei em direção ao prato e continuei a comer.”

Enquanto em certos momentos Karl Ove é maldoso em relação aos outros, em outros ele demonstra grande insegurança consigo mesmo. Quando a família vai a uma festa na casa de amigos, por exemplo, e Linda acaba ficando presa dentro do banheiro, ele não tem coragem de arrombar a porta por achar que não conseguiria e passaria vergonha, e mais tarde se sente um fracassado por ter deixado outra pessoa realizar a sua “tarefa como marido”. Ele também sente uma exaustão ao se relacionar com as outras pessoas, e ir a uma festa como essa acaba se tornando uma tarefa mais difícil do que deveria.

A sensação que o escritor suscita é de insatisfação, de estar à procura de algo que não pode definir. É fácil se identificar com o que Karl Ove está falando. Qualquer um que já tenha sentido angústia sobre a vida – sobre a rotina, sobre o propósito de estarmos no mundo, sobre a necessidade de cumprirmos obrigações cotidianas – ou uma necessidade de solidão é capaz de se relacionar, pelo menos até certo ponto, com a dor enraizada nele. É uma visão crua sobre a vida.

“Durante toda a minha vida adulta eu mantive distância dos outros, foi a maneira que encontrei para me virar, porque me sinto tão incrivelmente próximo das pessoas nos meus pensamentos e nas minhas emoções que elas não precisam fazer mais do que me rejeitar por um instante que seja para que uma tempestade se arme dentro de mim. Naturalmente sinto essa mesma proximidade em relação às crianças, é o que me permite sentar e brincar com elas, mas como as crianças não têm o verniz da decência e da cortesia que se encontra nos adultos, elas podiam adentrar livremente a cada exterior da minha personalidade e destruí-la como bem entendessem. A única resistência que eu podia oferecer, depois que os ataques começavam, consistia em recorrer à força bruta, o que seria impossível, ou em fazer de conta que eu não me importava, talvez a melhor opção, porém uma técnica que eu não dominava muito bem, uma vez que as crianças, ou pelo menos as crianças mais talentosas, percebiam de imediato o desconforto causado por essa presença.”

Demorei quase um ano, depois da leitura do primeiro livro, para finalmente pegar Um outro amor. Talvez por isso, percebi uma mudança singela entre o primeiro e o segundo livro, que mantém o tom seco da série intacto: enquanto o primeiro livro tratava de temas e episódios mais duros, como a morte do pai e a avó perdida em si mesma, a carga de melancolia se fazia mais presente nos próprios episódios do que na linguagem. No segundo livro, os temas são mais banais, sendo a vida rotineira privada de sua família de classe média na Suécia, e agora quem dá uma maior carga de amargura ao livro é a subjetividade e a linguagem do próprio narrador.

Um outro amor foi uma das melhores leituras dos últimos meses, o que deixa uma boa promessa para os próximos volumes. No Brasil, a série é publicada pela Companhia das Letras, e conta com quatro livros já lançados: A morte do pai (2013), Um outro amor (2014), A ilha da infância (2015) e Uma temporada no escuro (2016).

Ah, que inferno! Que inferno, como eu era cretino. Não consegui encontrar paz em um café, no instante seguinte eu tinha absorvido todas as pessoas lá dentro, e continuei a absorvê-las, e cada olhar atingia meu âmago provocava um tumulto no meu âmago, e cada gesto que eu fazia, mesmo que fosse apenas folhear um livro, propagava-se a mesma forma nas outras pessoas como um símbolo da minha idiotice, cada gesto meu anunciava: eis aqui um idiota. O melhor seria ir embora, pois os olhares desapareciam um a um, mas eram, claro, substituídos por novos olhares, que no entanto nunca chegavam a se fixar, mas simplesmente deslizavam, lá vai um idiota, lá vai um idiota, lá vai um idiota. Essa era a música que tocou quando eu ia embora. Eu sabia que nada disso era razoável, que era algo que estava em mim, dentro de mim, mas não adiantava, pois as pessoas alcançavam o meu âmago, causavam um tumulto em meu âmago, e mesmo a pessoa mais destrambelhada, mesmo a pessoa mais feia, mais gorda, e mais desleixada, mesmo aquela mulher boquiaberta e com o olhar vazio de uma idiota podia olhar para mim e no mesmo instante perceber que eu não era como eu devia ser. Até aquela mulher. Era assim que funcionava. Lá estava eu em meio a multidão, sob o céu que aos poucos escurecia, em meio aos flocos de neve que caíam, passando por lojas e mais lojas com o interior iluminado, sozinho na minha nova cidade, sem pensar em como as coisas haveriam de se passar, na verdade não fazia diferença nenhuma, eu pensava apenas que tinha de me virar no meio disso. E “isso” era a vida. E o que estava fazendo era me virar.

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❢ Clique aqui para ler a resenha de A morte do pai.

❢ Clique aqui para ler um trecho de Um outro amor.

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

One Comment

  • Marcia

    março 25, 2017 at 1:11 pm

    Eu li este livro e o amei desde o princípio. Me identifiquei muito com o jeito de ser do autor. Ele conta sua rotina sem artifícios pra parecer melhor do que realmente é. Desta forma ganhou meu respeito e admiração.

    Responder

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