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Quando surge um leitor

Um dia, Reveca anunciou casualmente que tinha Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, “um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”. Como Reveca bem sabia, Clarice nunca teria condições de ter um livro como aquele, então lhe disse para voltar no dia seguinte, quando a deixaria levá-lo emprestado. Radiante, Clarice voltou, conforme combinado, “literalmente correndo” pelas ruas úmidas do Recife. Quando chegou, Reveca pôs em ação seu “plano tranquilo e diabólico”. Com fingido pesar, disse a Clarice que ainda não tinha o livro, e pediu-lhe que voltasse no dia seguinte. No dia seguinte, inventou outra desculpa e disse que voltasse no dia seguinte. “Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina.”
Finalmente a sra. Bernstein ficou desconfiada e quis saber por que a “menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife”, continuava a aparecer na sua casa. Quando soube, ficou horrorizada pela descoberta do tipo de filha que tinha. “Mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!”, disse ela, espantada, à filha, ordenando-lhe que o emprestasse imediatamente a Clarice. A sra. Bernstein acrescentou que Clarice poderia ficar com o livro o tempo que quisesse.

“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardava o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim.”

Clarice, Benjamin Moser (Cosac Naify)

Quando li o trecho acima, em que Moser conta como Clarice Lispector ficou fascinada por Monteiro Lobato, me lembrei imediatamente de como foi o meu começo na literatura: de como, mesmo cansados depois de chegar do trabalho, meus pais se revezavam durante a semana para que todo dia eu e meu irmão ouvíssemos histórias.

Minha mãe, Vera, pegava um dos livros infantis que tínhamos e lia para nós, sentados na cama lado a lado e ansiosos. Geralmente, era um dos nossos favoritos: os quatro volumes da coleção uma história por dia, da Disney. Seguindo o calendário e divididos em estações do ano, os livros na verdade apresentavam duas histórias por dia, uma “grande” (para nossos parâmetros de criança, claro, pois só tinha uma ou duas páginas) e uma pequena (apenas dois parágrafos). Assim, quando estava exausta demais, deixávamos que ela lesse somente a pequena, contanto que acumulassemos duas histórias maiores para o dia seguinte.

Já meu pai, como um bom grego, nos contava os episódios da Odisseia e da Ilíada, que sabe até hoje de memória (não estou brincando, juro!). Quando Homero foi uma das leituras obrigatórias do segundo ano da faculdade, eu já conhecia todo o enredo do épico – desde a espera de Penélope até a descida de Ulisses ao reino de Hades -, o que me fez aproveitar muito mais a leitura, com gosto de nostalgia.

Em Disciplina do Amor, Lygia Fagundes Telles comenta desse mesmo momento em família: “Achille-Cléophas Flaubert, pai de Gustave Flaubert, reunia os filhos todas as noites para contar-lhes histórias, podiam desabar os maiores imprevistos mas a hora mágica era preservada. A dura infância de Machado de Assis era doce quando a Madrinha contava suas histórias.” São palavras que leio com carinho, pois eu tive, também essa “hora mágica”, que era parte da rotina dos Panteliou todo dia ao anoitecer.

Essas experiências fizeram muita diferença na minha formação como leitora. Lembro que, a partir dos meus 10 ou 11 anos, minha mãe começou a me chamar para a poesia, e recitava comigo poemas de Drummond – que eu não entendia muito bem, mas gostava do ritual. E nunca mais larguei a poesia. A partir do que meus pais me ensinaram é que construi meu gosto e dei passos maiores na literatura, amadurecendo como leitora ao longo dos anos e sempre com o apoio deles.

Hoje, quem leva livros para a dona Vera sou eu: sempre que leio algo que acho que ela vai gostar, retribuo aquele primeiro impulso que foi decisivo para meu crescimento como pessoa.

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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