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A natureza de Janie | Comentário

Em Seus olhos viam Deus, livro que conta a história de Janie  mulher negra criada pela avó na casa de uma família branca e que amadurece em busca de sua própria identidade e independência – Zora Neale Hurston recorre continuamente à natureza não só como uma força determinante e arrasadora, quando um furacão obriga Janie a sair de casa e fugir, mas também em belas imagens e analogias.

A protagonista usa termos relacionados a árvores e plantas para falar de sentimentos, visita uma árvore de pêras quando precisa pensar sozinha e está sempre em busca de abelhas, que simbolizam a procura pelo amor verdadeiro. Quando ela entende que o futuro segundo marido ainda não é o parceiro ideal, por exemplo, ela diz que “ele não representava o sol nascente e o pólen e árvores florescendo” (“he did not represent sun-up and pollen and blooming trees”, no original).

Em uma cena linda, em que sua avó Nanny está brava, Janie diz:

“Nanny’s head and face looked like the standing roots of some old tree that had been torn away by storm”.  (A cabeça e o rosto da vovó pareciam algo como as raízes penduradas de alguma árvore antiga que foi despedaçada pela tempestade – tradução livre)

Consigo imaginar no rosto dela possivelmente preocupação, talvez resignação e até tristeza. O jeito de descrever Nanny é muito parecido com o usado para descrever a população negra logo no início do livro. Mas, daquela vez, era a própria Nanny quem estava falando:

“You know, honey, us colored folks is branches without roots”. (Sabe, querida, nós gente de cor é galhos sem raízes – tradução livre)

Essa imagem é muito poderosa: galhos sem raízes podem significar uma árvore destruída, os galhos já separados do tronco e das raízes. É quase a mesma analogia da cena descrita por Janie, os galhos da Nanny despedaçados pela tempestade, exausta após uma existência inteira resistindo aos desafios da vida, muito diferente do tom positivo que, de maneira geral, as referências à natureza têm no livro.

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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