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Ouça a canção do vento e Pinball, 1973 – Haruki Murakami | Resenha

Em 1978, quando era dono de um bar em Tóquio, Haruki Murakami começou a tentar escrever um livro. A primeira tentativa foi em japonês, mas a escrita parecia desajustada. Então tentou usar o inglês, língua que ele tinha um repertório bem limitado. Isso o obrigou a escrever frases curtas, com a pouca sintaxe que conhecia, para depois passar para o japonês com essa mesma limitação, criando seu próprio estilo. Ele conta esse processo no prefácio de Ouça a canção do vento e Pinball, 1973, suas  primeiras obras, dois romances curtos editados no Brasil pelo selo Alfaguara.

“Creio que algumas pessoas tomaram isso como uma mostra de desprezo pelo japonês. A língua, entretanto, é um negócio resistente. Tem uma força tenaz que é comprovada por sua longa história. Não importa como as pessoas a tratem, nunca chegarão a prejudicar sua autonomia, mesmo que a manipulem de forma um pouco bruta. Experimentar as possibilidades da linguagem de todas as maneiras que sua imaginação alcançar é um direito inalienável de todos os escritores e, sem esse espírito aventureiro, nada de novo poderia surgir. O estilo da minha escrita em japonês é diferente do estilo do Tanizaki e também do estilo do Kawabata. Mas isso é natural. Afinal, eu sou outra pessoa, um escritor independente chamado Haruki Murakami.”

Mesmo após se acertar com a linguagem, Murakami nunca quis lançar as duas histórias fora do Japão, por sentir que eram trabalhos imaturos e inconsistentes. Em entrevista à Paris Review em 2004, ele contou que eram um esforço para desconstruir o romance tradicional japonês, aproveitando apenas a estrutura. Ele queria produzir algo original, mas acredita que só conseguiu atingir esse objetivo com o terceiro livro, Caçando Carneiros, de 1982.

O primeiro romance curto, Ouça a canção do vento, conta os 18 dias de férias da faculdade de um progratogonista sem nome em Tóquio, em 1970. Lá, ele passa os dias no J’s Bar e com o amigo Rato. O narrador em primeira pessoa inicia seu relato com a afirmação de que (assim como o Murakami da vida real) sentia dificuldade de escrever, dilema que durou oito anos.

Na história, ele repassa todo seu passado amoroso, relembrando as três mulheres com quem já se relacionou. Tudo para contextualizar o romance que vive durante esses dias, após conhecer uma moça misteriosa no bar e dormir no em seu apartamento após ela ficar extremamente bêbada. Apesar de nada acontecer nessa primeira noite, ali começa um romance vagaroso entre os dois, com certa desconfiança e certo fascínio.

Murkami faz várias referências culturais aos longo das duas histórias (dá para ver isso no trecho que separei ao final do post). Tem algumas “intromissões” da Rádio N.E.B., com a música California Girls, além de trechos de letras de outras canções. Por essa liberdade, com alguns capítulos curtos e outros mais longos, muitos diálogos e até um desenho de uma camiseta que o protagonista ganha de brinde, o livro tem uma aura pop.

Já em Pinball, 1973, o narrador passa os dias jogando fliperama no J’s Bar e vive quase um romance com a máquina de pinball Spaceship. Quando ela é retirada do bar, ele inicia uma busca para encontrar “sua companheira”. Em um dos melhores momentos, ele protagoniza uma verdadeira cena de amor com a máquina (coloquei apenas um trechinho pra não estragar a diversão de ler essa cena no livro):

“Parece que faz muito tempo que não te vejo. Diz ela. Eu finjo pensar, contando nos dedos. Já faz três anos…  tempo voa.

Nós dois concordamos e passamos algum tempo calados Se estivéssemos em um café, seria o momento de tomar pequenos goles das nossas bebidas ou brincar com a renda da cortina.

Penso muito em você, digo eu. Isso me deixa bem mal.”

Eu não tinha me informado muito sobre as duas histórias antes da leitura. Por isso, foi uma boa surpresa ver que elas tinham os mesmos personagens – que eu já tinha conhecido e gostado do Ouça a canção do Vento. Quando percebi, estava sorrindo por afeto a eles. Mas agora, em Pinball, 1973 eles não se encontram e vivem em cidades diferentes.

O protagonista é dono de uma empresa de tradução e mantém um relacionamento completamente informal com duas gêmeas que moram com ele, mas de quem ele nem sabe o nome. Seu grande objetivo é realmente encontrar a máquina de pinball que marcou sua vida.

Na entrevista à Paris Review, Murakami diz que Ouça a canção do vento e Pinball, 1973 serviram para o aprendizado, e nada mais que isso, e que suas obras ficaram maiores, mais complicados e mais inovadores a partir de então. Seja qual foi o propósito delas, as duas histórias dão uma boa ideia de onde e como alguns temas frequentes de Murakami se iniciaram – inclusive o próprio personagem, Rato, que será homônimo a outros em próximos livros de Murakami – e a formação de seu estilo, que mistura realismo e misticismo.

Além de tudo, a edição da Alfaguara é lindíssima (veja aqui abaixo!), como capa de Alceu Chiesorin Nunes e tradução de Rita Kohl.

Teve uma época em que todo mundo queria ser cool.

No final do colegial, eu decidi que ia galar só metade das coisas que pensasse. Não lembro o que me levou a tomar essa decisão, mas coloquei isso em prática durante vários anos. Até que, certo dia, descobri que havia me tornado uma pessoa só consegue dizer metade do que pensa.

Eu não sei o que isso tem a ver com ser cool. Mas se dá para dizer que uma geladeira velha que você precisa degelar o ano todo é cool, então eu também sou.

E, assim, para continuar escrevendo este texto tenho que sacudir sem parar, com cerveja e cigarros, a minha consciência, pois ela quer voltar a dormir em meio ao tempo estagnado. Tomo chuveiradas quentes, faço a barba duas vezes por dia, ouço meus velhos discos de novo e de novo. Neste momento cantam, atrás de mim, os obsoletos Peter, Paul & Mary.

Don’t think twice, it’s all right.

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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