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O que Tony Soprano tem a ver com tudo isso?

No vídeo de World Literature sobre Tudo Se Despedaça, de Chinua Achebe, cada especialista ouvido, de áreas diferentes, vai comentando o romance que é considerado obra inaugural da moderna literatura nigeriana. O livro conta a história de Okonkwo, guerreiro mais respeitado do clã de Umuofia e que começa a enfrentar desafios com a chegada de missionários europeus (se quiser saber mais sobre a obra, tem resenha aqui). 

Em certo momento do episódio de World Literature, Faith Salie, crítica cultural e jornalista, compara Okonkwo a Tony Soprano, personagem principal da série da HBO Os Sopranos, que fez muito sucesso nos anos 2000. Tony é um mafioso de família italiana que vive nos Estados Unidos e que começa a fazer terapia após um ataque de pânico.

Okonkwo is like Tony Soprano, they’re both ruled by their egos, they’re violent, they do things that we find despicable. Okonkwo’s got three wives he beats, Tony’s got ya know one wife and countless mistresses. We want to root for them but it’s so hard because they keep doing the same old thing.

(Okonkwo é como Tony Soprano, os dois são guiados por seus egos, são violentos, fazem coisas que achamos desprezíveis. Okonkwo tem três mulheres, nas quais bate. Tony tem uma esposa incontáveis amantes. Nós queremos torcer por eles, mas é tão difícil pois eles continuam sempre tomando as mesmas atitudes. – Tradução livre)

O legal é que não foi a primeira vez que eu via uma ligação entre Os Sopranos e literatura. Em 2014, fui fazer dois cursos de verão na Universidade de Berkeley, na Califórnia. Um deles, com o tema Questions of character in American Fiction, pedia para lermos cinco* obras selecionadas e assistirmos quatro episódios da série. A proposta do curso era traçar paralelos entre os questionamentos sobre identidade e pertencimento que encontramos tanto nos personagens dos livros e como no mafioso vivido pelo ator James Gandolfini.

Por isso mesmo, entendi o ponto de vista de Faith Salie: tanto Okonkwo como Tony Soprano são durões e até maldosos, mas muito em parte porque isso é esperado deles. Tanto um quanto o outro são dependentes da admiração, temor e reconhecimento dos que os cercam, a ponto de se sentir infelizes quando esse olhar externo falha. O que ninguém vê – no caso de Tony, talvez sua psicóloga veja – é que ambos também carregam uma grande porção de fragilidade. Em um trecho de O mundo se despedaça, o narrador diz:

Perhaps down in his heart Okonkwo was not a cruel man. But his whole life was dominated by fear the fear of failure and weakness. It was deeper and more intimate than the fear of evil and capricious nature, malevolent, red in tooth and claw. Okonkwo’s fear was greater than these. It was not external but lay deep within himself. It was the fear of himself, lest he should be found to resemble his father.

(Talvez no fundo de seu coração Okonkwo não era um homem cruel. Mas sua vida inteira foi dominada por medo, o medo do fracasso e da fraqueza. Era mais profundo e mais íntimo do que o medo da natureza maligna e caprichosa, malévola, vermelha em dente e garra. O medo de Okonkwo era maior que esses. Não era externo mas estava profundo dentro de si. Era o medo de si mesmo, para que não fosse considerado parecido com seu pai. – Tradução livre)

Os dois personagens são dicotômicos e apresentam muitos contrastes internos, reforçados pelo ambiente e pelos acontecimentos em suas vidas. Assim como Okonkwo se vê exilado da terra que ama e não consegue se sentir bem na nova aldeia e lidar com as mudanças em sua vida, Tony vagueia entre sua autoafirmação italiana e seus costumes americanos. Nas sessões do mafioso com a terapeuta, que conduzem a narrativa do seriado, conseguimos enxergar a batalha entre mostrar seus sentimentos e  São esses questionamentos e essa complexidade que fazem deles personagens tão bons de se ver, tão ricos e cheios de nuances. Nós, como leitores ou espectadores, ficamos hipnotizados por suas ações e simpatizamos com eles, apesar de tudo.


 

*Os conco livros do curso de Berkeley foram: Lucy (Jamaica Kincaid), A Mercy (Toni Morrison), Seus olhos viam Deus (Zora Neale Hurston), O som e a fúria (William Faulkner) e A fantástica vida breve de Oscar Wao (Junot Díaz). Além deles e dos episódios de Os Sopranos, o filme Faça a coisa certa, de Spike Lee, também era parte do conteúdo analisado.

Apaixonada por literatura desde criança, Mel Panteliou tem 25 anos e trabalha com relações públicas em São Paulo.

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